Quando se fala em vegetarianismo, essa vitamina, também conhecida como cobalamina ou cianocobalamina, é a mais citada e comentada. Saiba por quê
Por Marco Aurélio Bussacarini

Há razões claras para a B12 estar em foco, mas também há exageros ao se pensar que essa preocupação é apenas dos vegetarianos. Engana-se quem imagina ser a falta dessa vitamina um problema daqueles privilegiados que conseguem viver apenas com alimentos de origem vegetal. Várias pesquisas têm mostrado que a falta de B12 atinge um número significativo da população em geral.
Pesquisa recente realizada no Reino Unido com mulheres em idade fértil (19-39 anos) encontrou deficiência de vitamina B12 entre 12,4% e 21,25% delas, dependendo do método utilizado. Estima-se que 15 a 20% dos idosos nos Estados Unidos são deficientes em B12. Na Alemanha, cerca de 10% da população de idosos do sexo masculino e 26% da população idosa feminina apresenta nível insuficiente da vitamina. E na Índia cerca de 75% da população têm deficiência de vitamina B12.
No Brasil, pesquisas sobre a deficiência de B12 associada ao uso de medicamentos (metiformina) encontraram 17,9% de pessoas com deficiência, em comparação com 5,6% de deficiência em um grupo controle de pessoas sem uso de medicamentos. Outra pesquisa em idosos brasileiros demonstrou deficiência em 17,4%.
A desinformação é um dos maiores inimigos da dieta vegetariana. Em 2003, a American Dietetic Association (ADA) e nutricionistas do Canadá deram o seguinte parecer sobre dietas vegetarianas: “Os profissionais da nutrição têm a responsabilidade de apoiar e encorajar os que demonstram interesse pelo consumo de uma dieta vegetariana.” Em 1997, a ADA já afirmava que a dieta vegetariana pode ser utilizada em todas as etapas da vida (incluindo a gestação e a infância, os dois momentos de maior risco para a carência de B12, além da fase senil).


Curiosidades
A B12 é solúvel em água e tem cor rosa. É a única molécula no corpo dos mamíferos em que o elemento cobalto está presente. Nosso organismo necessita de quantidades muito pequenas dela, apenas dois ou três microgramas por dia (lembrando que um grama possui um milhão de microgramas, ou seja, um micrograma = 1/1.000.000 grama).
Além disso, o que encanta os estudiosos dessa vitamina é que nosso corpo consegue viver muitos meses, talvez anos, sem a ingestão dela. Isso é possível porque ela é excretada pelo fígado e reabsorvida pelo intestino, sendo reutilizada muitas vezes.
Sabe-se que todos os mamíferos necessitam dessa vitamina em processos importantíssimos no organismo. Ela é essencial na formação do sangue (eritropoiese), e sua falta pode causar a anemia perniciosa, em que os glóbulos vermelhos ficam muito grandes (e por causa disso é também chamada “anemia megaloblástica”). A B12 atua no metabolismo dos aminoácidos e dos ácidos nucleicos. A vitamina B9 (também conhecida como ácido fólico) precisa da presença da B12 para funcionar adequadamente.
Outra maravilha dessa vitamina é que ela liga nossa sobrevivência ao mundo das bactérias de forma inseparável. É que a B12 não é produzida por animais, nem por plantas, mas única e exclusivamente por algumas bactérias. As plantas não usam a vitamina B12 em seu metabolismo, e não têm a capacidade de armazená-la, mas os animais podem armazenar a B12 em quase todos os tecidos, em especial no fígado. A maioria dos mamíferos possui bactérias em seu trato intestinal que produzem a vitamina B12. A vitamina que se encontra nos alimentos de origem animal não foi produzida ali, mas somente armazenada. A produção da B12 é característica única e exclusivamente de algumas bactérias.
Uma função essencial da B12 é na formação e manutenção do sistema nervoso. Os sintomas neurológicos da carência podem começar com uma ou mais das seguintes situações:
– Aparecimento de dificuldades de memória.
– Sensação crônica de cansaço.
– Sensações estranhas na pele, como formigamentos, coceiras e outras (isso é chamado pelos médicos de “parestesias”).
– Às vezes, perda de sensibilidade.
– Depressão.
– Podendo chegar até a situações mais graves, como dificuldade em mover partes do corpo, com paralisia de alguns movimentos (como, por exemplo, erguer as pernas ou caminhar).
A carência dessa vitamina pode ocorrer em todas as idades, mas as crianças, as gestantes, os idosos e os vegetarianos são os grupos de maior risco, pois a falta da B12 para esses grupos traz consequências muito sérias para a saúde.
Vários pesquisadores têm chamado a atenção para o fato de que ainda não se conhecem bem as múltiplas formas de carência de B12 em crianças abaixo dos quatro anos de idade, em especial nos 12 primeiros meses de vida. Na vida intrauterina e nos primeiros meses de vida, o cérebro está em crescimento e formação acelerados, e a falta dessa vitamina pode causar problemas de diversas magnitudes, dependendo da parte do cérebro que está em formação no momento da carência.


Ao ingerirmos um alimento com B12, precisamos deixar essa vitamina disponível para ser ligada ao FI, e isso é feito pela digestão no estômago. Aqueles que possuem digestão muito lenta ou quem tem estômago menos ácido (inclusive provocado pelo uso de antiácidos) têm risco maior de deficiência de B12. Algumas pessoas têm problemas em produzir o FI. Isso faz com que tenham dificuldade de absorver a B12, independentemente de consumirem boas fontes
e quantidades. Há um limite de absorção para a quantidade de B12 ingerida em uma única refeição. A explicação se deve ao fato de que os transportadores do FI + B12 ficam cheios (saturados) e não conseguem absorver mais. Podemos absorver em uma única refeição 1 a 1,5 µg de B12. A capacidade de absorção volta ao normal após quatro a seis horas da primeira dose.
É importante saber que a falta da vitamina faz com que duas substâncias químicas se acumulem na corrente sanguínea: o ácido metilmalônico e a homocisteína. Essas substâncias podem ser dosadas no sangue e funcionam como indicadores auxiliares de que está faltando B12.

Um pouco de história
Em 1824, já havia relatos de uma doença que ficou conhecida como “anemia perniciosa”. Era chamada dessa forma pois geralmente levava à morte em um a três anos após o diagnóstico. A solução terapêutica surgiu apenas em 1926, quando George Minot e Willian Murphy demonstraram que a ingestão diária de uma dieta contendo bife de fígado levemente cozido levava à remissão da anemia após alguns meses.
A vitamina B12 foi isolada pela primeira vez em 1948, simultaneamente nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mas somente em 1963 foram descobertas as primeiras funções metabólicas dessa vitamina. E em 1979 elas foram definitivamente elucidadas e sua síntese concluída. Dois prêmios Nobel foram concedidos a pesquisadores que estudaram a vitamina.

Patologia
É sabido que na falta de B12 a célula vermelha (hemácia) fica grande (anemia megaloblástica). Essa anemia ocorre somente em alguns casos de falta de B12, não em todos. O que muitos não sabem é que os sintomas mais frequentes são neurológicos e estão ligados à redução da atividade cognitiva (concentração, memória e atenção), com desconforto para as atividades intelectuais, além de formigamento nas pernas.
Outras doenças que podem estar associadas à deficiência: ateroma (acúmulo de placas de gordura nos vasos sanguíneos), defeito de formação do tubo neural (alteração que faz com que crianças nasçam com sérias alterações na coluna vertebral e irreversível paralisia das pernas) e esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado). Em estágios mais avançados, a pessoa pode ter sintomas psiquiátricos (depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, manias) e pode até entrar em coma.
Existem algumas situações que aceleram ou desencadeiam a deficiência de B12. As mais comuns são excesso de consumo do organismo (essa causa parece ser muito frequente. A atividade mental e intelectual aumenta o consumo da B12); deficiência alimentar (isso pode ocorrer se não houver ingestão de alimentos de origem animal, como carnes, ovos e lácteos; portanto, nos indivíduos estritamente vegetarianos ou veganos); e distúrbios da absorção de B12, que podem ter diversas causas:


Diagnóstico
Como podemos saber se há deficiência de B12? Metade das pessoas que possui níveis sanguíneos baixos não apresenta sintomas importantes. A maioria não sabe que sintomas neurológicos (como cansaço crônico, dificuldades de memória, depressão) podem estar sendo causados pela falta de B12.
A dosagem de vitamina B12 no sangue é o melhor método para diagnosticar deficiência. Os níveis normais estão entre 150 ou 200 µg/ml (dependendo do método de dosagem utilizado) até 900 µg/ml. No entanto, algumas pessoas apresentam sintomas de falta de B12 com níveis que hoje são tidos como normais. Por isso, muitos médicos já preferem considerar deficiência níveis abaixo de 490 µg/ml.
Hemograma: pode demonstrar a anemia (hemoglobina e hematócrito reduzidos) e o tamanho da célula aumentado (a parte do hemograma que mostra isso é o Volume Corpuscular Médio). Se a anemia se torna mais grave, ocorre diminuição das células de defesa (neutropenia) e das plaquetas (trombocitopenia). É importante lembrar que muitas pessoas com deficiência de B12 possuem o hemograma completamente normal.
Reticulócitos: são as células vermelhas jovens. Na deficiência de B12, seus níveis sanguíneos ficam reduzidos (para o grau da anemia). Esse exame pode ser influenciado por outros nutrientes e condições clínicas.
Homocisteína: se eleva na deficiência de B12 (e também na de vitaminas B9 e B6). Algumas doenças, como hipotireoidismo e síndrome de Down, podem alterar o nível desse composto, assim como diversos medicamentos. A avaliação da homocisteína exige muitos cuidados. Esse exame pode ser dispensado para a avaliação da B12.
Ácido Metilmalônico: na deficiência de B12, ocorre aumento do ácido metilmalônico (o que não ocorre na deficiência de ácido fólico), e pode ser detectado no sangue e na urina. Esse exame é caro e, na prática clínica, dispensável. É usado mais para pesquisas clínicas.
Holotranscobalamina II: é a proteína que transporta a B12 no sangue. Não costuma ser feito no Brasil. Como você pode imaginar, é extremamente caro.
Dosagem sanguínea de anticorpo anticélula parietal e de anticorpo bloqueador do FI: serve para diagnosticar a anemia perniciosa de origem autoimune. O anticorpo bloqueador do FI é mais específico.
Dosagem de folato (vitamina B9) no sangue: pode ser usado na dúvida da etiologia da anemia (B12 ou B9). A dieta vegetariana é rica em vitamina B9 (ácido fólico), e isso pode mascarar a deficiência de B12, que muitas vezes só é diagnosticada quando surgem alterações no sistema nervoso. A deficiência de B9 causa manifestações muito parecidas com as da deficiência de B12, exceto pela neuropatia.
Tratamento Fase 1: Para elevar os níveis de B12 ao normal, há duas possibilidades:
– Via injetável: indicada em casos em que os sinais e sintomas da deficiência são importantes, tipo quadros de emergência neurológica por privação de B12.
– Via oral: é a forma mais indicada para a maioria dos casos. É interessante saber que não há relatos de toxicidade pelo uso excessivo de B12, e os resultados do uso oral são excelentes.
Fase 2: Para manter a vitamina B12 em níveis adequados:
Nesse momento vamos entender que seus níveis de B12 já estão adequados, e agora pretendemos mantê-los adequados.
– Uso diário da B12, por via oral: para os adultos, a dose mínima recomendada é de 5 µg de B12 por comprimido (alguns suplementos no mercado apresentam doses maiores, como 10 ou 15 µg), duas vezes ao dia.