sexta-feira, 7 de abril de 2017

Ataque com mísseis deixa seis mortos e destrói base, diz Exército sírio

Durante a noite de quinta-feira, navios americanos no Mediterrâneo lançaram 59 mísseis de cruzeiro "Tomahawk" contra a base aérea de Al-Shayrat, na região central da Síria

US Department of Defense/AFP

Beirute, Líbano - O exército sírio anunciou nesta sexta-feira que o ataque americano a uma base aérea da região central do país deixou seis mortos e provocou muitos danos materiais, sem informar se as vítimas são civis ou militares. "Estados Unidos executaram às 3h42 (21h42 de Brasília, quinta-feira) uma agressão flagrante contra uma de nossas bases aéreas no centro, com mísseis, que deixou seis mortos, feridos e importantes danos materiais", informou o exército em um comunicado lido por um porta-voz na televisão pública.

A base aérea de Shayrat - na província de Homs - ficou "quase totalmente destruída". De acordo com o diretor da ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman, o aeroporto "foi quase totalmente destruído: os aviões, a pista, o depósito de combustível e o edifício da defesa aérea foram pulverizados".

Durante a noite de quinta-feira, navios americanos no Mediterrâneo lançaram 59 mísseis de cruzeiro "Tomahawk" contra a base aérea de Al-Shayrat, na região central da Síria, informou o Pentágono. O ataque é uma resposta ao suposto ataque químico atribuído ao "ditador Bashar al-Assad" e o presidente Donald Trump pediu às "nações civilizadas" uma ação para deter o massacre no país. Os principais aliados de Assad, Moscou e Teerã, condenaram com veemência a primeira operação militar dos Estados Unidos contra o regime sírio. A Rússia pediu uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU.

 Jim Watson/AFP

Em um discurso solene exibido na televisão a partir de sua residência na Flórida, Donald Trump explicou que os ataques estavam "associados ao programa" de armas químicas de Damasco e "diretamente relacionados" aos "horríveis" acontecimentos de terça-feira. O bombardeio atribuído ao exército sírio na terça-feira contra a cidade de Khan Sheikhun (noroeste) deixou pelo menos 86 mortos, incluindo 27 crianças, e provocou indignação internacional. As imagens das vítimas agonizantes comoveram o mundo.

O serviço secreto americano estabeleceu que os aviões que executaram o ataque decolaram da base de Al-Shayrat, conhecida como um local de armazenamento de armas químicas antes de 2013, segundo o Pentágono.

'Ataque horrível'

Com o semblante sério, o presidente Trump afirmou que os Estados Unidos são "sinônimo de justiça" e pediu às "nações civilizadas" que interrompam o banho de sangue na Síria. O país está devastado por uma guerra que deixou 320 mil mortos desde março de 2011, além de ter provocado a fuga de milhões de pessoas e a crise humanitária mais grave desde a Segunda Guerra Mundial.

Fontes do governo americano não informaram se novos ataques estão previstos, mas indicaram que a resposta de Washington é "proporcional". Em dificuldade há vários meses ante o regime, a coalizão da oposição política síria saudou a operação americana. "Esperamos que os bombardeios continuem", disse o porta-voz do grupo, Ahmad Ramadan.

O influente grupo rebelde Jaish al-Islam, que integra o Alto Comitê de Negociações (HCN) da oposição síria, afirmou que os bombardeios americanos contra apenas um aeroporto militar do regime "não é suficiente". "Atacar apenas um aeroporto não é suficiente. Existem 26 aeroportos (utilizados pelo regime) para bombardear civis. O mundo inteiro deve ajudar a salvar o povo sírio das garras do assassino Bashar (al-Assad) e seus comparsas", afirmou Mohamed Allouche, dirigente do Jaish al-Islam.

A imprensa estatal e o exército da Síria chamaram o ataque de "agressão". "Esta agressão americana destaca a continuidade da estratégia equivocada dos Estados Unidos", afirma um comunicado militar. "O alto comando do exército e das Forças Armadas afirmam que sua resposta será uma determinação maior para cumprir seu dever nacional na defesa do povo sírio e derrotar o terrorismo onde estiver", completa a nota militar.

A Rússia, principal aliado de Damasco, denunciou uma "agressão contra um Estado soberano". "Esta ação de Washington provoca um prejuízo considerável às relações entre Estados Unidos e Rússia, que já se encontram em um estado lamentável", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

O Pentágono informou que Washington avisou Moscou com antecedência sobre o ataque.A Rússia anunciou a suspensão do acordo assinado com Washington para impedir incidentes entre aviões dos dois países na Síria. "A parte russa suspende o memorando com os Estados Unidos sobre a prevenção dos incidentes e a segurança dos voos durante as operações na Síria realizadas pelas aviações russa e americana", afirmou a porta-voz do ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, em um comunicado.

'Ação unilateral'

Antes do ataque, o embaixador russo na ONU, Vladimir Safronkov, advertiu para as "consequências negativas" em caso de intervenção militar. Safrankov fez a afirmação após uma reunião do Conselho de Segurança que não conseguiu, depois de dois dias de debate, chegar a um acordo sobre uma resolução de condenação ao ataque de terça-feira.

O chefe da diplomacia americana, Rex Tillerson, acusou a Rússia de ter evitado suas responsabilidades. Também defendeu a saída do presidente Assad, uma semana depois de ter dado a entender que esta não era uma prioridade. No Irã, outro grande aliado do regime de Assad, o ministério das Relações Exteriores "condenou energicamente" os bombardeios americanos e "qualquer ação unilateral", segundo a agência Fars. A China pediu a todas as partes que "evitem a deterioração" da situação e afirmou que é contra o uso de armas químicas por qualquer país, organização ou indivíduo, independente das circunstâncias e do objetivo.

Aliado dos rebeldes e vizinho da Síria, a Turquia considerou "positivos" os bombardeios dos Estados Unidos, assim como a Arábia Saudita. Em 2013, o antecessor de Donald Trump, Barack Obama, decepcionou os países árabes ao não atacar o regime sírio após um ataque com armas químicas perto de Damasco que deixou mais de 1.400 mortos. Naquele momento, Donald Trump pediu no Twitter que Obama não optasse pela intervenção na Síria.

O governo turco também pediu a criação de uma zona de exclusão aérea na Síria. "Para evitar a reprodução deste tipo de massacres (o suposto ataque químico atribuído ao regime) é necessário instaurar o quanto antes uma zona de exclusão aérea e zonas de segurança na Síria", afirmou o porta-voz do presidente Recep Tayyip Erdogan, Ibrahim Kalin.

Gás sarin

Uma fonte do governo americano acusou o regime sírio de ter utilizado em Khan Sheikhun "um agente neurotóxico que tem as características do gás sarin". O sarin é um gás inodoro e invisível. Mesmo se não for inalado, o simples contato com a pele bloqueia a transmissão do impulso nervoso e provoca a morte por parada cardiorrespiratória.

O regime sírio já foi acusado de ter utilizado gás sarin em 21 de agosto de 2013 no ataque a localidades sob controle dos rebeldes na periferia de Damasco, que deixou pelo menos 1.429 mortos, incluindo 426 crianças, de acordo com os Estados Unidos. Mas o chefe da diplomacia síria, Walid Muallem, reafirmou na quinta-feira que o exército do país "não utilizou e nunca utilizará" armas químicas contra seu povo, "nem sequer contra os terroristas", expressão do regime para designar os rebeldes e jihadistas.

De acordo com Damasco, a aviação síria bombardeou na terça-feira um "depósito de munições" dos jihadistas, que continha "substâncias químicas". A explicação, que já havia sido apresentada pelo exército da Rússia, é considerada "inverossímil" por especialistas militares.