sábado, 11 de novembro de 2017

Bell Marques relembra início de carreira: "A Xuxa me tornou rico"


Bell Marques está com 64 anos, 40 destes dedicados ao axé. Um dos responsáveis pela popularização do gênero e estruturação do circuito de festas de Carnaval em Salvador, ele tem consciência do legado que sua geração deixou para a música popular brasileira e para o folclore do País.
Sem o Chiclete com Banana, Luiz Caldas, Araketu, Margareth Menezes, entre tantos outros, não existiria uma indústria que movimentou em 2017 mais de R$ 300 milhões só na Bahia.
Mas Bell lembra que, no início, eles tiveram que superar não só o preconceito que o resto do País tinha com a música do Estado, como também convencer o Poder Público que o que eles faziam ia manter Salvador como destino anual de milhões de turistas.
— Ser pioneiro em algo não é fácil. O axé cresceu demais, criou padrões de festas que são repetidos no País inteiro e se transformou na música oficial do Carnaval brasileiro. É uma parceria do estado com artistas que deu certo. Mas levamos 40 anos para estruturar tudo isso da forma como é hoje.
Para celebrar o resultado de sua atuação como músico e agitador cultural, Bell acaba de lançar uma turnê onde se apresentará em cima de um Trio Elétrico (também em shows indoor). No palco, o músico tocará grandes sucessos do Chiclete com Banana e da carreira solo e vai contar histórias que ajudam a entender a evolução da banda que o revelou e da axé music em geral.
São Paulo recebe essa apresentação em 12 de novembro, no Espaço das Américas. Em entrevista ao R7, Bell analisa a história da música baiana e faz um balanço sobre as quatro décadas em que se manteve como artista de agenda lotada.
R7 — Qual a dificuldade em criar um show que reúne quatro décadas de história?
Bell Marques — Se for para analisar, já são quatro gerações diferentes acompanhando meu trabalho. Então o show mostra um misto de sensações diferentes. Quem esteve lá no início, quando tudo era menor, vai ter a nostalgia de ter visto as coisas começando. Quem já pegou o Chiclete na fase das micaretas, lembra de um período onde todo mundo tinha adesivo da patinha (logomarca do bloco Camaleão) colada no carro e usava a faixa com o nome da banda na cabeça. É um projeto nostálgico.
"Quando a Xuxa gravou a música Festa do Estica e Puxa, que é minha, a banda bombou e nós ganhamos muito dinheiro. Fiquei rico"
Bell Marques
R7 — Qual o impacto do Chiclete para o Carnaval de rua de Salvador?
Bell — A festa é uma antes e depois do Chiclete. Isso é inegável. Ser pioneiro em algo não é fácil. O axé cresceu demais, criou padrões de festas que são repetidos no País inteiro e se transformou na música oficial do Carnaval brasileiro. Mas levamos 40 anos para estruturar tudo isso da forma como é hoje. No começo, a galera estranhava aqueles artistas vestidos em roupas coloridas, tocando músicas alegres, cheias de percussão. Foi um longo processo até a aceitação.
R7 — Para você e para o Chiclete, teve algum momento crucial para estourar no Brasil?
Bell — Quando a Xuxa gravou a música Festa do Estica e Puxa, que é minha, a banda bombou e nós ganhamos muito dinheiro. Fiquei rico (risos). Foi quando consegui comprar um apartamento e investir ainda mais no grupo. Também passamos a ser vistos com respeito, a ponto dos contratantes liberarem shows de três horas, o que depois virou marca registrada nossa.
R7 — Teus filhos seguiram os mesmos passos seu. Como é apoiá-los a cantar, mesmo sabendo de toda dificuldade em se tornar famoso?
Bell — Eu sei bem disso. Comecei tocando rock e migrei pro axé porque precisava pagar as contas, né? Mas eu não ia dar força pro Rafa e pro Pipo se sentisse que eles não levavam jeito pra coisa. Jamais deixaria meus filhos serem expostos ao ridículo. Ser filho de quem eles são abre algumas portas, mas se não trabalhassem, eles não teriam sucesso algum.
R7 — Em 2011, você tirou a barba para uma campanha publicitária. Por que topou abandonar essa sua marca registrada?
Bell — O cachê (de R$ 2 milhões pagos pela Gilette) teve um bom destino: 80% foi doado para projetos de caridade. Sempre fiz isso quando pude. O show que fiz no TCA, por exemplo, teve verba revertida para Hospital Aristides Maltez, uma das referências em tratamento do câncer na Bahia.
R7 — Dizem que você é calvo, por isso não tira a bandana. Toparia tirar em prol de uma boa causa?
Bell — Com certeza. Sem problema nenhum. Eu já até sugeri isso, mas ainda não rolou. Porém, aceitaria por uma boa causa. Mas a bandana eu uso por questões de identificação. A pessoa vê alguém de bandana na rua e já pensa que é Bell Marques. Eu tenho muitas. Nem sei quantas. Escolho conforme meu humor. Mas as que mais gosto são as que integram uma coleção assinada pelo artista plástico baiano Carybé. Foram feitas exclusivamente para mim. É muita moral.